I. O PAÍS DOS FRUTOS
O País dos Frutos é um país alto, atravessado por rios imensos e límpidos de
luz e pelos caminhos imprevisíveis dos pássaros. Nesse país, os frutos
crescem na direcção do chão que é a direcção certa de crescer. No País dos
Frutos há cor, sabor, frescura e o tilintar da música que há nas sílabas do
nome de todos os frutos. Quando se diz o nome de um fruto é como se o vento
fizesse baloiçar as sonoridades delicadas daqueles jogos de canas que se
penduram nas árvores ou nas varandas das casas. Por isso se diz que neste
país os frutos têm música dentro do nome e luz e cor. E o nome dos frutos
escreve-se com as mesmas letras da alegria, da frescura e da liberdade.
De tão poucas vezes vir aqui, pensei não estar na página de entrada quando entrei directamente ao post anterior, sobre a exposição de fotografia de Sérgio Guerra, Hereros.
Foi o último post antes do derradeitro abandono ao silêncio. Mas tal como no Morabeza e no Maning Nice, custa-me que fique assim enquanto vou perguntando se não havia mesmo hipótese de o blog se tornar comunitário onde várias pessoas o fossem regando.
Alguém?
A exposição em Lisboa não faz justiça à publicidade. As luzes, demasiado fortes potenciavam o reflexo da parede oposta. A galeria em si, para expor pintura ou fotografia, deixa muito a desejar. É um local pitoresco e acolhedor, mas para expor outro tipo de arte. Para além do espaço de observação de uma imagem nunca ser mais de cerca de metro e meio de distância, grande parte das mesmas têm apenas alguns centímetros, sendo impossível um ângulo em que não vejamos a nossa própria cara, ou a de alguém a tentar o mesmo, ou, nos locais mais espaçosos, os quadros das paredes opostas. A gota de água foi a sala onde decorria em loop o documentário de Sérgio Guerra, que se apresentava com um televisor caseiro de ecrã virado para uma marquise cheia de luz... exacto, mal se conseguia ver a imagem...
Mas a Galeria Perve conseguiu ir ainda mais longe: andavam homens a fazer reparações no espaço, indo com frequência ao recanto formado pelas escadas (que se desciam para ver o documentário), tendo sido o momento em que ficaram ali, mesmo ao lado da televisão a conversar ante o pasmo (e o silêncio!) de quem tentava (em vão) ouvir o mesmo e se perguntava que raio estariam aqueles dois a fazer ali. No fim, o responsável não se mostrou receptivo às observações, chegando à rudeza de simplesmente virar costas. Ficou esclarecido: Um grande fotógrafo e uma grande obra, que mereciam uma galeria a sério para mostrar este trabalho...